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Sustentabilidade Simplificada — Blogue SAN

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Ciência Cidadã como Estratégia para a Gestão Climática e Sustentabilidade Agrícola

  • Writer: Andrés Rueda
    Andrés Rueda
  • 10 de outubro de 2025
  • 4 min de leitura

A Ciência Cidadã (CS) está se consolidando como um paradigma transformador que democratiza a produção de conhecimento integrando os cidadãos aos processos científicos. De acordo com a Associação Europeia de Ciência Cidadã, esta abordagem é orientada por princípios como a participação voluntária, a transparência metodológica, o reconhecimento dos participantes e a aplicabilidade social dos resultados.


Panoramic view of the Los Medios vereda, San Vicente de Chururí municipality in Santander, Colombia. The main crops there are cocoa and citrus, along with significant pastures. Photo: Alejandro Peña/Fundación Natura.
Vista panorâmica de Los Medios vereda, município de San Vicente de Chururí em Santander, Colômbia. As principais culturas são cacau e frutas cítricas, além de pastagens significativas. Foto: Alejandro Peña/Fundación Natura.

Na verdade, estudos como “Desenho participativo de experimentos de ciência cidadã” (Senabre, Ferran e Perelló, 2018) mostram que a ciência cidadã cocriada —onde os participantes estão envolvidos em todas as etapas do processo de pesquisa, do design à interpretação dos resultados— não apenas aumenta a motivação e o engajamento da comunidade, mas também melhora a relevância e a aplicabilidade social dos dados gerados.


Além disso, a publicação “Ciência cidadã para todos. Um guia para profissionais de ciência cidadã” (Pettibone et al., 2017) destaca que a ciência cidadã é uma ferramenta fundamental para expandir tanto o conhecimento científico quanto a alfabetização comunitária. Isso é feito por meio de um modelo estruturado que integra protocolos rigorosos, equipes multidisciplinares e ferramentas educacionais personalizadas. Esta abordagem, validada ao longo de décadas no Cornell Lab of Ornithology, sublinha a importância de conceber projetos que não só gerem dados fiáveis em grande escala, mas também capacitem os participantes através de processos colaborativos.


Cocoa producer in Santander, Colombia, learns how to measure daily rainfall in her farm. Photo: Alejandro Peña/Fundación Natura.
Produtora de cacau em Santander, Colômbia, aprende a medir a precipitação diária em sua fazenda. Foto: Alejandro Peña/Fundación Natura.

Monitoramento Climático Participativo

Um estudo de caso na Colômbia é o Monitoramento Climático Participativo (PCM) projeto, implementado pela Fundación Natura e ISAGEN na área influenciada pela Central Hidrelétrica de Sogamoso (Santander). Este projeto, documentado no livro Monitoramento Climático Participativo MCP – Uma Estratégia Baseada na Abordagem da Ciência Cidadã (Rueda Q. et al., 2019), surgiu das preocupações da comunidade local sobre possíveis impactos microclimáticos do reservatório de Topocoro. O PCM envolveu mais de 100 produtores rurais no registro sistemático de variáveis meteorológicas (precipitação, temperatura, umidade relativa) utilizando instrumentos simples (medidores de chuva, termo-higrômetros) e protocolos adaptados localmente.


Dentro desse arcabouço da ciência cidadã, a flexibilidade metodológica permitiu que os protocolos fossem adaptados às realidades locais; houve troca de conhecimento integrando expertise técnica e empírica; e ferramentas educacionais e comunicação contínua foram mantidas por meio de rádios comunitárias e grupos de WhatsApp. Estes elementos facilitaram a capacitação local e a gestão baseada em dados, permitindo aos agricultores correlacionar variáveis climáticas com os ciclos fenológicos e fitopatológicos de culturas como o cacau, o café e o tabaco.


Close up of cacao fruit attached to the tree.
Vagem de cacau na árvore. Foto: Alejandro Peña/Fundación Natura

Por meio das análises de correlação de Pearson e Spearman, foi demonstrado que os registros diários de variáveis climáticas —como temperatura, precipitação e umidade relativa— coletados por 91 monitores locais tiveram correlação significativa (p < 0,05) com dados de estações meteorológicas automatizadas, validando assim a confiabilidade das informações geradas pelos cidadãos. Além disso, a análise espacial permitiu identificar zonas microclimáticas anteriormente não documentadas, permitindo uma caracterização detalhada dos padrões locais e das suas ligações aos ciclos fenológicos e fitopatológicos de culturas como o cacau e o café. Estes resultados não só apoiam a utilidade científica do PCM, mas também demonstram a sua capacidade de gerar dados espaciais e temporais de alta resolução, essenciais para a tomada de decisões agrícolas e a adaptação climática nas zonas rurais.


Portanto, o PCM não apenas melhorou a resiliência climática do território, mas também promoveu o empoderamento da comunidade. Como relataram participantes como Luis Torres e Natanael Ramírez, os registros climáticos tornaram-se ferramentas para negociar empréstimos, otimizar práticas agrícolas e levantar alertas sobre riscos ambientais. Além disso, a inclusão de diversos atores (crianças, mulheres, educadores) promoveu uma governança climática inclusiva alinhada aos princípios da Ciência Cidadã.



Sistema de Monitoramento e Garantia Baseado na Comunidade

Esta experiência lançou as bases para iniciativas como a Sistema de Monitoramento e Garantia Baseado na Comunidade (CMAS), atualmente em implementação em Planadas (Tolima) em parceria com a Rede de Agricultura Sustentável (SAN), Rainforest Alliance, Preferred by Nature e Fundación Natura. Financiado pelo Fundo de Inovações ISEAL, o CMAS busca superar o paradoxo “difusão–impacto” dos padrões de sustentabilidade, nos quais altos volumes de certificação não se traduzem em benefícios tangíveis para pequenos produtores devido a limitações de auditoria, custo e capacidade técnica.


O CMAS expande a abordagem PCM integrando módulos de sustentabilidade (agrofloresta, solo, água, direitos humanos) e uma plataforma digital (iHub) para processamento de dados. Monitores comunitários —selecionados por seus pares— coletam informações sobre a adoção de práticas, validando cadeias de suprimentos em tempo real e reduzindo a assimetria informacional típica de auditorias externas. Isto não só fortalece a credibilidade de certificações como Rainforest Alliance e Nespresso AAA, mas também capacita as comunidades a envolverem-se numa gestão adaptativa e baseada em evidências.


Three Fundación Natura staffers gather around a woman farmer, and explain to her how to interpret the data.
Os treinamentos ensinam os agricultores a coletar e interpretar dados. Foto: Alejandro Peña/Fundación Natura

A conexão entre o PCM em Santander e o CMAS em Tolima demonstrou o potencial da Ciência Cidadã para gerar dados espaciais e temporais de alta resolução, cruciais para entender e otimizar práticas agrícolas; promover a participação inclusiva e a equidade na governança ambiental; construir pontes entre o conhecimento local e os padrões globais para aumentar a legitimidade da certificação; e promover a sustentabilidade de longo prazo por meio de processos liderados pela comunidade com suporte técnico institucional.


Por todas estas razões, a Ciência Cidadã surge como um eixo estratégico para enfrentar os desafios das alterações climáticas e da agricultura sustentável. As experiências colombianas demonstram que quando se combinam estruturas conceituais sólidas, suporte técnico adaptativo e confiança nas capacidades locais, é possível construir sistemas de monitoramento que não apenas produzem dados confiáveis, mas também transformam as realidades socioecológicas dos territórios.



 
 
 

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